Por Pierre MC e Rosanna Tavares


domingo, 5 de dezembro de 2010

Faz Barulho Entrevista Rincon

Foto: André Santos
Defendendo a resistência artística da periferia, Rincón Sapiência, é mais um dos representantes dessa nova safra do RAP, carregando consigo elementos primordiais. Nessa entrevista concedida ao FAZBARULHO, você confere um pouco do ele  pensa sobre a diversidade da cena.

Quais suas influências no RAP?

"As influências são muitas, com certeza não me lembrarei de todas, mas se tratando do rap nacional o Racionais é a influência mais cativante, não tem como lembrar da minha infância no começo da década de noventa e não lembrar dos Racionais, agora quem me deu visão para fazer rap foi o Xis, autor de um dos trampos mais zica da cena que é o disco "Seja como for", diria que são minhas duas grandes influências do rap nacional. Quanto as músicas que vem fazendo minha cabeça, a maioria faz parte da cena comercial norte americana, atualmente meus artistas preferidos são Nas, Jay - Z, Fabolous, Lil Wayne, Ludacris e Mos Def, estão sempre no topo do meu conceito."

Sobre o que você rima?

"Atualmente tento fazer da vida uma arte no formato de rap, o detalhe é manter a essência do trabalho, sou suspeito a dizer mas acho que estou consiguindo manter uma grande particularidade nas minhas letras, consigo falar de relacionamentos, de assuntos pessoais, música, questões raciais, conflitos sociais e etc; sem assumir diversas facetas, atualmente estou vivendo uma fase muito boa de se trabalhar, grande parte desse sentimento surge por contas das letras. Prefiro não definir um estilo de letras, deixo para que o público faça isso, meu foco no momento é atingir também pessoas ligadas a outros pontos de cultura que não sejam necessariamente o rap. Como artista de rap gosto muito de samba por exemplo, seria uma honra se o público do samba fossem também admiradores e consumidores de rap, pra que isso aconteça temos que encontrar um bom equilíbrio entre a estética e o tema da música, procuro amadurecer nesse sentido."

Qual sua opinião sobre o atual cena nacional?

"Amadureceu em vários pontos, mas ainda não é massivo, não tem massa de demandas de trabalho e também não tem massa de demandas de consumo, ainda é muito restrito a poucos estados, a pouca variação de estéticas, a poucas variação de tema, e por aí vai... mas considero que muitas coisas ainda estão por vir, é uma fase de reformulação, até eu me encontro contribuindo com a falta de demanda de trabalho, mas nessa peneragem toda, o nível mínimo de qualidade será maior, e as coisas caminharão de uma forma diferente acredito eu, onde postura amadora não será tolerada."

Como é o seu envolvimento com outros MC's?

"Minha interação é boa, fecho com vários artistas de diferentes segmentos do rap, ninguém gosta de se rotular mas as vezes o "rótulo" ajuda na identificação da arte, no meu ponto de vista o grande problema é o sectarismo, temos o RZO ainda ativo na cena, temos o Marcelo D2 inserido nas grandes mídias, temos o Mv Bill nas grandes mídias também, ainda agregando um discurso politizado, temos o Kamau que lançou um álbum que repercuitiu bem, o Emicida que vem sendo o mais reverenciado no momento, temos o Facção Central que faz a cabeça de vários mulekes nas periferias, o Costa a Costa em Fortaleza, o Gasper em Goiânia, o GOG no DF, o Rapadura como grande força nordestina, beatmakers e produtores vem se destacando no sul do país, sem contar o Racionais como o maior grupo do Brasil. Mais o grande e grave problema é a falta de interação desses trabalhos, interação é sintonia, não necessariamente trampar junto ou andar junto na rua, interação não seria cada um querer fazer seu corre e foda - se o outro. Quando noto que posso ajudar ou somar de alguma forma procuro interagir, indepentente se o artista se assume gangsta, "under", charme ou qualquer outro rótulo, procuro interagir com as quebradas, automaticamente acabo me interagindo com os afrodescendentes, e assim vamos nos expandindo. Havendo boa interação interna podemos pensar em grandes expansões, procuro ser flexível nesse ponto."

O Que você acha que está faltando  para que o RAP consiga mais espaço na mídia? 

"Espaço na mídia até que temos de certa forma, esse bom momento que é essa entrevista vem de um espaço concedido pela mídia, o detalhe é que ainda não é uma grande mídia como a televisão por exemplo. É difícil dizer o que devemos fazer para nos inserirmos nas grandes mídias, mas enquanto temos as nossas mídias independentes, podemos explorá- las, pensar em formas para aperfeiçoá- las e com isso expandir nossos trabalhos coletivamente. O forró, as músicas da periferia do Belém do Pará vem ganhando muita força, as apresentações atraem um grande público, a estrutura é altamente profissional, o cachê é bom e os artistas são livres para se portarem como quiserem, então eu pergunto, onde entra as grandes mídias nesse movimento? Não podemos agir como se o ponto máximo do rap fosse atingir as grandes mídias."

O Que significa o RAP pra você?

"O Rap é o ritmo e a poesia, é o formato contemporâneo do que já faziam antes na música popular, se tratando da poesia considero o rap ainda mais evoluído. Temos o requinte de Chico Buarque, de Cartola, de Paulinho da Viola, de Gilberto Gil, de Elton Medeiros, com técnicas de métricas tão ricas como as métricas de Cordel, temos ritmo e levada como na embolada, improvisamos como repentistas, e temos a liberdade de se apropriar do samba, do jazz, do funk, do tango, da música eletrônica e qualquer outro ritmo que entre na pesquisa do artista. O diferencial é que as elites tem um grande poder de influência e omitem nosso brilho, mas quando freqüento sarais por exemplo, noto o impacto que tem as rimas do rap, entendedores da poesia e literatura nos admiram muito, o rap significa muito pra mim, acho foda quem consegue fazer rap, quem domina a ciência do rap, tanto dj quanto cantador, por mais que o rap ainda seja marginalizado me orgulho muito de dominar essa arte."
Faz Barulho Entrevista Rincon Rating: 4.5 Diposkan Oleh: Pierre